Legends of Zangor - #02


Capítulo 01 - Cavalo de Madeira

- Eu lhe disse que cavalo era uma má ideia - era o velho Chap resmungando como sempre - Muitos detalhes, cauda, curvas, pelos deuses, os cascos! Por que você não faz um bonequinho, ou compra algo de uma vez?

- Mas que droga, Chap, eu falei mais de uma vez que prometi à Helena esse cavalinho! Que tipo de pai serei se não fizer isso? - Aldus Golden havia, finalmente, perdido a paciência com seu mais antigo amigo. - Beba sua maldita cerveja e pare de me atrapalhar.

Aldus e Chap estavam sentados à beira da lareira, o primeiro com o corpo inclinado em direção a uma mesinha, repleta de ferramentas para entalhe, pedaços de madeira e tinta. Um caneco bem abastecido de cerveja estava a seus pés, não aparentando ter sido tocado desde que fora servido. O velho Chap, por sua vez, estava esparramado em sua cadeira, segurando displicentemente o caneco de cerveja e admirando seus calejados pés esticados em direção ao fogo. Cada marca parecia dizer muitas histórias, mais do que cabiam na consciência de um homem. O velho suspirou fundo, com quem se ressente por algo, mas não se sabia pelo quê.

Suavamente, Aldus ergueu o olhar e fitou o amigo, reconhecendo aquele olhar distante, capturando tudo e nada ao mesmo tempo. Seu rosto com traços muito retos e expressão severa aos poucos foi se amansando, e uma expressão de resignação se construiu entre a barba negra e os olhos amarelados. Foi sua vez de suspirar fundo.

- Hey, Chap, que tal eu pegar um pouco daquele ensopado para comermos. Sabe-se lá quanto tempo já perdi neste maldito cavalinho - deu uma risada contida - Acho que cê tem razão, eu deveria ter construído algo mais simples, com menos detalhes... mas sabe como sou com Leninha.

Chap fez um gesto com a mão para que tudo aquilo fosse esquecido. - Eu sei, seu ogro de botas, você é só um pai babão. Me admira que ainda não tenha ido ao extremo norte caçar um unicórnio para sua menina - retribuiu com uma risada mais animada, e se levantou com alguma dificuldade da cadeira.

Chap era um velho esguio e bastante magro, apenas com lembranças de cabelo na redonda cabeça, um amplo nariz e mãos bastante calejadas. Vestia uma camisa de panos simples, mas a calça velha era de uma seda que certamente já vira dias melhores.

- Eu fico me perguntando por quê essa coisa das meninas com pôneis, unicórnios...não faz nenhum sentido. Quando eu era criança, meu sonho era ter um corcel do deserto. Sempre os achei...

- "Verdadeiras máquinas de combate, as montarias dos heróis" - completou Chap com a melhor voz de zombaria possível. - Cê parece um alaúde de uma corda só, Aldus. Acho que está ficando velho como eu.

- Como você, nunca. Espero que minhas bolas ainda funcionem... o-oi, Leninha, minha filha! Pensava que ainda estava lá fora brincando com seus amiguinhos - a aparição da jovem Helena pegou de surpresa o duro Aldus, logo no meio de sua picardia.

Helena era uma criancinha típica das histórias de princesas. A pele alva como a neve, com cabelos longos que se desenrolavam até a cintura, pretos como o carvão, e o olhar amarelo forte que rapidamente a identificava ao pai. Carregava no pescoço um colar com uma pequena e discreta pedra vermelha. Sua simples presença parecia mudar o ambiente, especialmente por transformar Aldus de uma rocha bruta no pudim mais cremoso que um nobre poderia comer em Theyley.

Chap tentou desconcertadamente melhorar o cenário para o amigo: - Sabe, Leninha, seu pai é um verdadeiro analfabeto, ele quis dizer botas, "que minhas botas funcionem" - O pigarro que seguiu a fala do velho narigudo certamente não ajudou na sua atuação. Aldus tentou retomar o controle da situação.

- Não ligue para ele, já bebeu além da conta. Mas diga, filha, você cansou de brincar?

- Não, papai. Apenas quis saber como anda o Flori - a voz suave de Helena permitia compreender porque a feição de Aldus mudara tão rápido.

- Flori? - Aldus arqueou a sobrancelha sem entender nada.

- O cavalinho que o senhor tá fazendo para mim - respondeu a menininha com um riso honesto.

- Ah, então cê já deu nome para sua eguinha? - era Chap.

- Não é uma égua, tio Chap, é um cavalo de princesa, como os que a lady Isabelle tem.

- Hum, desculpe, desculpe. Agora entendi tudo...cê já quer sua montaria para quando virar dona dessa joça toda. - respondeu Chap. - Só me garanta uma coisa, Lena: não deixe esse barbudo mandar em nada no seu reino. Ele seria tão mau administrador quanto é mau cantor - a pilhéria estava estabelecida.

- O que cê sabe sobre administrar, ou mesmo cantar, seu matuzalém. - Aldus se virou risonho para Helena. - Ainda estou talhando seu Flori, meu anjo, demorará um pouco... você sabe, montarias reais precisam ser muito bem elaboradas - encerrou com uma piscadela e um sorriso carinhoso.

Aldus trocou mais algumas palavras com sua filha, enquanto Chap enchia sua tigela com ensopado fumegante de cordeiro com batatas e cenouras, rasgando um largo pedaço de pão. Depois que o anfitrião fechou a porta novamente, o velho deu um longo suspiro e falou solto:

- Ela me lembra demais Cassandra...

A feição de Aldus mudou automaticamente. Não foi da afetividade para a dureza de antes, ou mesmo para a pilhéria. Não, o que se instalou nele foi um vazio, transmitido em seu olhar dourado para o nada. Chap notou a merda que falara.

- Olha, desculpe, meu amigo. Eu-eu não quis magoar, cê sabe. Acho que já bebi demais...

- Tudo bem, Chap - interrompeu Aldus - ela realmente lembra demais Cassandra.

Um silêncio profundo se estabeleceu por alguns segundos, que pareceram durar horas.

- Bem, ao menos ela tem esses olhos amarelos de doente seus, assim temos certeza que não está criando o filho dos seus vizinhos - apesar de inesperado, o comentário trouxe uma risada maior em Aldus, que deu um tapinha no ombro do velho amigo.

- Cê é impagável, velho imprestável.

Depois de devorar duas tigelas de ensopado, Chap sentiu que seria o momento certo para voltar a sua casa. Helena voltara da rua, também jantara, e acatou o pedido do pai para dormir. Aldus seguiu sentado, centrado, dedicado, admirado com a dificuldade em finalizar seu cavalo entalhado.

O som da chama crepitante na lareira pareceu criar um efeito hipnótico em sua cabeça, encarando o cavalinho de forma compenetrada, pensando sabe-se lá o quê. Às vezes os pensamentos de uma pessoa são tão profundos, que nem mesmo a onisciência permite acesso a eles.

Passaram-se longos minutos com Aldus sentado em frente à lareira, apenas com o som do fogo e um distante burburinho do lado de fora. A sala da casa era pequena, mas bem preenchida. Além da lareira com duas cadeiras grandiosas à frente, havia um suporte na parede exibindo uma espada longa, de lâmina afiada e cabo dourado. Uma estante ao lado oposto mantinha alguns livros, muitos deles de fábulas e histórias, certamente dedicados a Helena. O brasão da família real de Theyley ficava à mostra ao lado do símbolo da Guarda Real de Theyley, na parede em frente à cozinha. Sob eles, uma mesa redonda, própria para o jantar, e um baú ao canto, lacrado com um grande e pesado cadeado.

O olhar de Aldus seguia preso ao cavalinho, sem avançar no seu trabalho artesanal. Na sala, somente o som da madeira estalando ao fogo, e um burburinho crescente vindo da rua.

O que chamava mais atenção na sala, entretanto, era um quadro postado sobre a lareira. Nele, uma mulher linda, de olhos esverdeados, cabelos negros, e uma pele alva, pintada com uma graciosidade incrivel, com seu vestido vermelho e um sorriso sincero. Levava consigo um colar com uma pedra vermelha no pescoço. Era linda. Abaixo da tela, uma dedicatória gravada no ouro: "ao senhor inspetor Aldus Golden e sua prestadíssima Cassandra, uma mostra de minha gratidão por descobrir e capturar o terrível assassino da senhora Greystone. De Olton Greystone, pelas mãos do grandioso Baleretti".

A chama da fogueira bruxuleava mais intensa, talvez pelo calor atingir partes mais essenciais da madeira, evidenciando o rosto negro de Aldus. Um rosto sofrido, mas não pelas provações físicas, e sim, pelas sentimentais.

No cômodo quase vazio, ouvia-se o som da chama crepitante, agora solapado pelo barulho das ruas. Um forte bater na porta tirou Aldus de seu transe incerto.

- Inspetor Golden! - gritou alguém fora da casa - Trago um chamado urgente de Lorde Pomérion!

Continua...

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