Legends Of Zangor - #01


Epílogo - Sangue nobre derramado

Aquela era uma noite particularmente incomum. O brilho do luar parecia surtir um efeito único sobre as casas, iluminando melancolicamente os telhados e penetrando pelas janelas como se quisesse revelar segredos obscenos dos moradores, tirá-los do conforto da escuridão, chama-los a contar suas verdades.

A luz parcial trazida pela lua alcançava uma mesa ampla, com documentos desorganizados, uma pena mergulhada no tinteiro, uma pequena orbe azulada que cintilava sobre um suporte de ouro, e uma garrafa do melhor vinho dos Bosques Parnasos, com menos da metade de seu conteúdo. As cortinas de seda imperial estavam abertas, propriamente a receber a iluminação noturna, auxiliando o candeeiro jogado ao chão sobre o avolumado tapete de peles, agora chamuscado em alguns pontos. A cadeira de mogno maciço com adornos em ouro estava próxima à janela, com um travesseiro demasiado macio aos seus pés.

Os burburinhos do lado de fora do cômodo foram abruptamente interrompidos. O corredor amplo, repleto de retratos familiares, representando a força e opulência da família Wolfengar, além de vasos feitos com a acurácia dos anões, dispunha de vários homens da Guarda de Theyley, com suas indumentárias em perfeita ordem, portando o escudo com o símbolo de Tranislav e as espadas embainhadas ao lado direito da cintura, sem deixar transparecer pelos seus elmos nada além de disciplina.

Lorde Pomérion aproximava-se com pressa, mas sem perder a compostura tampouco deixar de respeitar o ritual que envolvia a aparição do Paladino-Mor da Guarda. Sua armadura prateada por si só anunciava a chegada, com sons abafados a cada passo. A longa capa azul cobria boa parte da vestimenta do Lorde, dando destaque a suas feições duras e a seu tamanho imponente. Próximo aos dois metros de altura, Pomérion era a personificação do soldado formidável, misturando corpulência com elegância, além de transmitir o senso de serenidade e rigor que só poderia ser esperado de um paladino experiente e renomado em todo o continente.

Sem grandes anúncios, Pomérion abriu as portas do cômodo, fazendo a iluminação da lua ser rapidamente sobreposta pelas luzes do corredor, fornecidas pelas engenhocas típicas de Theyley: lamparinas que canalizam gases em alta temperatura e os transformam em luz amarela e quente, útil para iluminar e aquecer as residências (dos mais abastados, obviamente).

A calorosa iluminação amarela revelou o que as sombras teimavam em esconder. O cômodo era um escritório, com estantes do mesmo mogno de que eram feitas a cadeira e a mesa. Não havia muitos livros, e quase todas as capas eram pretas, sem grandes destaques. Uma mesa de vidro reunia três poltronas em um segundo espaço dentro do cômodo, seguida de um balcão com garrafas das melhores bebidas que um nobre poderia querer, além de alguns tipos de fumo, e, claro, um belíssimo quadro postado à frente das estantes, tomando grande parte da parede em que ficava o balcão de bebidas. Era difícil dizer se os dragões era tão exuberantes quanto aquele na pintura a óleo, há muito não se tinha relato de um.

Mas Pomérion não olhou para nada disso. Não notou a orbe azulada sobre o suporte de ouro, não aproveitou nenhuma das caras e extravagantes bebidas disponíveis, não estranhou a monotonia dos livros de mesma capa. Talvez tenha percebido o candeeiro ao chão, e o tapete chamuscado. Entretanto, o que guardou sua atenção foi o corpo de Adyl Wolfengar, postado próximo à porta, envolto em sangue que buscava timidamente os sulcos do piso de madeira fina. Mais que isso, ele encarou a flecha, penetrada pela nuca do nobre, com sua pluma negra destacada, como um estandarte.

Não houve um longo período de contemplação, ou mesmo uma grande busca no escritório. O olhar impassivo do Lorde e sua postura dura só foram traídos por um suspiro profundo, entre a lamentação e a preocupação. Com vagar, retornou as faces da porta para fechá-la, e com um gesto simples chamou um dos indistinguíveis guardas em postura de continência.

- Preciso de Golden aqui. Agora. Não permita a entrada de ninguém na propriedade além dele - Sua ordem, embora sussurrada, soou como um trovão.

Continua.....

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