HQ- Nacionais - Os desafios da produção de quadrinhos no Brasil


O panorama de produção de quadrinhos no Brasil cresceu, no entanto como todo tipo de produção artística nesse país enfrenta dificuldades em receber incentivos e exposição na mídia.

Como desenhista e designer eu sei em primeira mão como é difícil adquirir tanto material, quanto software para desenho e estudo de quadrinhos. O nosso país ainda tem problemas em entender que criatividade também é trabalho nem só diversão, a visão é que desenhista não está fazendo um trabalho e sim se divertindo. Ao longo dos anos e venho observando que a situação deu uma pequena melhorada porém o caminho ainda é difícil. Há várias coisas a se analisar na hora de fazer um projeto de quadrinhos: qual publico, como vai ser a distribuição, qual a mídia utilizada, publicação independente ou procurar uma editora. O quadrinista de hoje tem vários meios de promover o seu trabalho e fazer acontecer , mas ainda tem uma certa resistência por parte do publico que já esta ha muito tempo acostumado com publicações estrangeiras e só vê o quadrinho brasileiro como sendo de humor. Antigamente o sonho do desenhista brasileiro era trabalhar para uma editora americana, a exemplo de artistas famosos como Mike Deodato, Joe Bennet, Rafael Grampá , Rodney Buchemi entre outros. Hoje uma carreira no mercado brasileiro é possível, mesmo porque a tecnologia permitiu que esses mesmos artistas de talento pudessem produzir aqui mesmo projetos autorais. Coisa que ha algum tempo era praticamente impossível.

Como Começar? Bom como tudo você tem que ter a premissa da sua história, fazer pesquisas para ver se já não há algo similar e de preferência sair do lugar-comum. Fazer a sua versão de um super-herói já existente não vai acrescentar nada, no entanto é o que boa parte dos iniciantes faz. Pensar em um sentimento para história é até mais importante do que pensar nos poderes, se o personagem tiver. A verdade é que você tem que olhar além dos quadrinhos americanos, há mangás e quadrinhos europeus com histórias fantásticas que não necessariamente tem alguém com capa voando pelos céus. Outra coisa que você tem que analisar é o que você pretende fazer, ser o quadrinista, roteirista e editor vai esgotar você de tal maneira que um trabalho prazeroso virará uma tortura, forme uma equipe com pessoas com habilidades diferentes que possam te ajudar ao mesmo tempo que divulgam suas habilidades, sendo no roteiro, nos desenhos, no letreiramento, na edição ou publicação.

Digital ou tradicional? Vai da sua habilidade e velocidade, se você achar mais fácil e rápido fazer lápis, arte final e cor no método tradicional(Lápis, nanquim e papel) vai fundo, se você acha que no digital você consegue fazer a arte mais rápido invista nisto, o que você tem que ter consciência é que velocidade e qualidade tem que andar juntos, não adianta desenhar incrivelmente bem e levar uma década para fazer uma edição ou fazer qualquer rabisco em minutos e ficar uma porcaria. De qualquer modo é sempre bom planejar uma três ou quatro edições em avanço para ter um tempo de respiro. Senão todo mês vai ser uma corrida contra o tempo, como disse dívidas tarefas, veja o que agiliza o trabalho se a combinação dos dois tipos levar a um resultado legal então esse é o caminho.

Digital, qual software usar? Isso depende de vários fatores , mas principalmente da máquina que você está usando, eu uso o Clip Studio Paint(antigo Mangá Studio) , já vem com varias ferramentas para criação de histórias inteiras, roda muito bem em computadores antigos e foi feito exatamente para auxiliar quadrinistas e mangakás. Existe vários programas voltados para pintura e desenho como o Krita que é opensource, o Adobe Photoshop, Adobe Illustrator , o Arte Rage entre outros. Uma coisa que eu recomendo é uma mesa digitalizadora, antigo tablet gráfico, de preferencia da Wacon, o modelo mais barato tem uma ótima qualidade e durabilidade , a minha Bamboo Conect está comigo há pelo menos uns 8 anos.

Tradicional(Old School) Nesse quesito você pode desenhar até com carvão em uma pedra desde que tenha noção de que uma hora ou outra isso vai ter que ser digitalizado e editado para poder virar um quadrinho. Lápis e borracha para esboços, lapiseira para dar uma refinada na arte, bico de pena e caneta de nanquim para arte-finalizar e lápis de cor ou tinta para colorir, ou até mesmo nanquim para acabamento em aguada. Mesa de luz e uma luminária, além de uma prancheta A3 no mínimo ,para que você possa inclinar vão facilitar o trabalho.

Do software ou prancheta direto para a banca ou site? Não, antes de mandar para gráfica para impressão/ imprimir em casa ou publicar em um site como o Issu é necessário editar, ou seja, arrumar de maneira que o programa de impressão ou de leitura possa entender qual página ou quadro vai aonde. Para isso usasse o Adobe Indesign ou o Scribus, uma vez que você finalizou as páginas você pode importar para esses software e então organizar , numerar e colocar anúncios e outros elementos em ordem para impressão ou em um PDF para publicação em sites. No caso da impressão é importante fazer a imposição de páginas antes de enviar e mesmo em casa para poder imprimir e grampear.

Onde aprender? Bom, você vai aprender desenho tanto com tutoriais quanto com professores, com o tempo você vai descobrir a sua maneira de trabalhar e em qual parte da produção de quadrinhos você se encaixa. São poucos os cursos presenciais que realmente entram na questão de narrativa e roteiro, uma boa parte foca no desenho, porém de um jeito ou de outro você vai ter que se aprofundar nisso, basicamente em livros como Quadrinhos Arte sequencial e Narrativas Gráficas de Will Eisner e Desvendando Quadrinhos de Scott McCloud. Edição , diagramação e produção gráfica isso até onde eu sei só uma Graduação em Design Gráfico pode te ensinar, da para aprender algumas coisas trabalhando em gráficas , mas certas coisas só mesmo na faculdade.

Quero fazer uma grande tiragem, onde eu vou? Em uma gráfica de grande porte. Um Bureau de impressão ou gráfica de esquina vai, com certeza, cobrar muito mais caro porque eles justamente vão pegar o seu arquivo e enviar para uma gráfica maior e cobrar em cima do valor que ele pagaram. Em gráficas de grande porte você provavelmente vai ter que fazer um cadastro e há uma tiragem mínima que varia de gráfica para gráfica, o acompanhamento também é mais profissional, mesmo porque se alguma coisa sair errada não vai ser em uma ou duas revistas, estamos falando de uma produção de no mínimo umas mil revistas. Então antes de rodar eles vão checar e rechecar umas 20 vezes e vão exigir sua confirmação.

Putz, quero fazer em casa, e ai? Impressora jato de tinta com tanque, normalmente encontradas da marca Epson, tem uma boa relação custo beneficio e uma qualidade ótima, a tinta dura e com um pouco de planejamento é possível diminuir ainda mais os custos de produção. O papel é aconselhável sulfite 90gr para a capa e 75gr para o miolo, se você realmente quer gastar então papel fotográfico para capa e 90gr para o miolo.

Em resumo O maior problema que um artista de quadrinhos ou mangaká enfrenta hoje em dia é o mesmo de séculos atrás, boa parte da população ainda não vê como uma profissão séria, apesar de exigir um esforço quase sobre humano de quem escolhe esse caminho. Ainda se escuta que isso é profissão de vagabundo, que a pessoa vai morrer de fome e por ai vai, vejo vários bons quadrinistas desistirem por falta de apoio da família e amigos. Mesmo com tudo isso falado temos que ressaltar que os meios de divulgação e o abismo que separava a ideia da produção foi encurtado devido as novas tecnologias. As publicações independentes na minha opinião são basicamente o melhor meio de aumentar o mercado e gerar visibilidade, por mais que seja ótimo produzir uma tiragem gigantesca, é possível com algum planejamento fazer uma tiragem menor em casa. Varias ferramentas tanto de diagramação quanto de impressão estão disponíveis para o artista. Softwares como Mangá Studio e Adobe Indesign conseguem fazer um produto com qualidade profissional. Impressoras com tanques de tinta representam uma enorme economia e apresentam uma qualidade ótima. Com algum esforço é possível montar um ateliê modesto e a a partir dai produzir sua própria HQ sem a necessidade de lutar por um lugar ao sol em alguma editora. Outro ponto positivo de publicações independentes é não estar submetidos a aprovação ou não de outra pessoa, no caso um editor ou mesmo ter que se contentar em desenhar a história de outros, deixando assim você livre para contar a sua própria.

Onde divulgar: https://beta.socialcomics.com.br/ https://www.catarse.me/

https://issuu.com/

https://tapas.io/

Quem Acompanhar : Ilustraqui– Projeto da Professora e Ilustradora Mônica Lopes Pipoca e Nanquim-Canal dedicado a quadrinhos Comic Girl 19- Canal de quadrinhos e entretenimento em geral Rapha Pinheiro – Quadrinhos Brasileiros Zine Brasil- Canal da Quadrinista Michelle Ramos CroquiCafe – Canal para exercícios de gestual com referencias 99Balões - Projeto visando a projeção dos quadrinistas

Roteirizando - Com Hamilton Kabuna

Programas de desenho: Clip Studio Paint(Antigo Mangá Studio) - Pago Adobe Photoshop -Pago Krita – Open source

Programas de diagramação: Adobe Indesign -Pago Scribus -Open source

(Artigo originalmente publicado na versão impressa do Ronin Fanzine)

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